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PORTUGAL - “VINHO VERDE”

  • Foto do escritor: Luís Gustavo Bassani
    Luís Gustavo Bassani
  • há 21 horas
  • 6 min de leitura

“Em Portugal, onde há gente, há vinha e há vinho”


 

O Minho localiza-se no noroeste de Portugal, limitado pelo rio Minho, ao norte, onde faz fronteira com a Espanha; pelo rio Douro e serras da Freita, da Arada e de Montemuro, ao sul; pelas serras da Peneda, do Gerês, da Cabreira e do Marão, a leste, e pelo Oceano Atlantico, a oeste.

Os vestígios de sociedades humanas já com práticas vitiviníferas remontam de 4 mil anos atrás, trazida pelos fenícios, gregos, celtas e romanos, posteriormente.

Entre os séculos VII a.C., e II a.C. essa região de Portugal foi habitada por tribos de origem céltica, os galaicos, tempos anteriores à chegada dos Romanos. Esse povos já habitavam a Galícia,  - daí a origem do nome – e desciam até o Douro, que em terras espanholas recebe o nome de Duero.

Sob o comando do General Romano Dècimus Junus Brutus, os romanos, em 138 a.C., dominaram os povos galaicos, fundando, então, a Gallaecia – Galécia – fronteiriça com a província romana da Lusitânia. À época, a cidade mais importante da região era Bracara Augusta, atual Braga.

Os Romanos levaram consigo a cultura mediterrânea da oliveira e da vinha, substituindo, a partir desse momento a cultura sedimentada da Europa Central - baseada em trigo e cerveja, de origem céltica – para a cultura do azeite e do vinho. Devido às tradições greco-romanas, baseadas no culto à Baco – e Dionísio – o desenvolvimento técnico de praticas vitivinícolas, estudos de solo, seleção de cepas e atenção ao clima deu origem a excelentes vinhos, já revelando as primeiras menções ao vinho verde.

As invasões bárbaras da península Ibérica, lideradas principalmente pelos suevos,  visigodos e vândalos, duraram cerca de 200 anos. Em que pese tais confrontos culturais, denota-se que a cultura da vinha e do vinho se manteve viva, fato evidenciado pelo fato de, no século VII, o Código visigótico fazer menção ao comercio e produção do vinho.

O norte de Portugal teve menor influência dos mouros, iniciada por volta de 750 D.c., que as regiões mais ao sul, como Algarve que durante 539 anos permaneceu sob domínio mouro, e apenas 38 anos no Minho.

No século VIII houve a reconquista do território pelos cristãos, culminando na expulsão dos mouros. Com isso houve a vitória do vinho e do azeite de oliva sobre a cidra e a manteiga.

Nos anos vindouros a atividade vinícola se tornou uma importante parcela da economia da região. Como em muitas regiões da Europa, como a Borgonha, os monges ligados à Igreja Católica, em especial  os da ordem de Cister, desenvolveram conhecimentos técnicos na vitivinicultura que, até hoje, garantem a ótima qualidade do vinho nessas regiões. O primeiro registro oficial da região se deu por volta de 1172 sob o reinado de Afonso Henrique, que dispunha sobre particularidades dos direitos e alguns privilégios para os produtores de uva da região do Minho, que à época já era tradicionalmente reconhecida por sua produção de vinho pelos monges beneditinos.

Em 1908 a denominação de origem “Vinhos Verdes” foi oficialmente demarcada, sendo, portanto, uma das mais antigas D.O’s de Portugal. Já em 1926 foi criada a Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes – CVRVV, sendo responsável pela gestão, controle e certificação da denominação dos Vinhos Verdes, tarefa que desempenha até os dias atuais.

“Vinhos Verdes” foi pela primeira vez expresso em registros oficiais em 1606. Já a menção de vinho do “Porto”, para os vinhos oriundos do Douro, deu-se em 1675, e era destinado quase que exclusivamente à Inglaterra, sendo o primeiro registro dessas exportações datadas de 1678, de 405 pipas (recipientes de 550 litros). Em 10 de setembro de 1756 foi criada, por alvará régio, Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro. Em 1728, já sob as regras do Tratado de Methuen (1703), as importações da Inglaterra de Vinho do Porto já eram de 25 mil pipas.

Hoje, quando se fala em Vinho Verde, são os brancos que reinam absolutos no imaginário geral, entretanto, foram os tintos que inicialmente trouxeram fama à região. Foi em meados do século XIX que as castas brancas locais começaram a ganhar fama, o que levou o governo, em 1908, a delimitar a região, criando a Denominação de Origem Protegida (DOP) “Vinho Verde”.

“Vinho Verde”, segundo a “wines of Portugal” significa uma contraposição à “vinho maduro”, isto é, designa a condição de vinhos frescos, jovens, onde, quando disponíveis para a comercialização estão prontos para o consumo. Todavia, essa expressão, em muitos lugares tem como correto o entendimento de que a palavra “Verde” remete à vegetação exuberante da região, aos verdes vales do Minho. Assim, uma versão não anula a outra, tendo em vista que, de fato, as duas correspondem à realidade.

A área dos Vinhos Verdes, hoje, divide-se em nove sub-regiões:

·        Monção e Melgaço,

·        Lima,

·        Cávado,

·        Ave,

·        Sousa,

·        Basto,

·        Amarante

·        Baião

·        Paiva

Monção e Melgaço é uma área singular dentre todas as sub-regiões. Localizada no vale do rio Minho, é protegida da influencia atlântica por montanhas, possui grande amplitude térmica e clima temperado, conjunto ideal para que sua uva autóctone, a alvarinho, (albarinho, na Galícia) se desenvolva em todo o seu potencial de frescor, elegância e longevidade.

Em geral, o solo da região da D.O.P. é granítico de pouca profundidade, de textura arenosa, pobre em fosforo e rico em potássio.

A região dos “Vinhos Verdes” produz seus vinhos branco, tinto e rosado, com base em castas autóctones, selecionadas ao longo do tempo por apresentar elementos organolépticos complexos.

Embora haja vinhos tintos, são as castas brancas que se destacam nessa região. Dentre elas, as principais são:

Alvarinho: natural do vale do Rio Minho, é a principal casta da sub-região de Monção e Melgaço, onde essa varidade de uva se expressa em sua melhor forma e longevidade. Originam vinhos com elevada acidez, porem equilibrada, com notas cítricas (toranja, tangerina) e de frutas tropicais (abacaxi, maracujá, manga).

Arinto: também conhecida na região como Pedernã, é uma das mais antigas e versáteis castas brancas de Portugal, originando excelentes vinhos tranquilos e espumantes. Destaca-se pela fruta citrina (limão, laranja), com notas de maçã e de flor de laranjeira, e pela estrutura ácida, originando vinhos intensos e longevos.

Avesso: originária do vale do Douro, essa variedade aprecia as zonas mais quentes e protegidas da influência atlântica. Os vinhos são encorpados e profundos, de aromas frutados (pêssego, laranja, abacaxi) e sabores complexos, com notas amendoadas.

Azal: de maturação tardia, a Azal se desenvolve melhor em sub-regiões mais continentais, protegidas dos ventos atlânticos, fatror que equilibra a sua elevada acidez natural. O citrino domina nos vinhos de azal, com a componente ácida evidente em notas de casca de limão, lima, toranja, maçã verde.

Loureiro: Conhecida, desde o séc. XVIII, é variedade a mais plantada na Região dos Vinhos Verdes, preferindo as sub-regiões de maior influência atlântica, já que sofre com o excesso de calor. Origina vinhos aromáticos, especialmente nas notas citrinas de lima e limão e notas florais, resultando vinhos extremamente elegantes.

Trajadura: Geralmente utilizada em blends, a Trajadura está presente em quase toda a região.  Possui aromas delicados a pêssego, pera, banana, maçã madura. Resulta e vinhos com moderada acidez. Nos cortes, contribui para atenuar a acidez mais elevada de outras variedades.

Na gastronomia, primeiramente devemos respeitar as harmonizações étnicas, ou seja, as tradições gastronômicas da região. Porém, o Vinho Verde demonstra enorme versatilidade quando posto à mesa.

Frutos do mar e mariscos – pedem um Vinho Verde branco jovem (que tambem acompanham muito bem sushis e sashimis), com uma acidez fresca, como alvarinho. A depender do preparo ou acompanhamento, pode ser um mais intenso, um loureiro barricado ou arinto.

Ceviche – Verde branco, jovem e aromático, como um loureiro, se dá muito bem com a acidez do prato.

Salada Ceasar – em um prato onde as folhas verdes crocantes e frescas acompanhadas de outros elementos, como frango grelhado, alguma charcutaria e, por vezes, camarão, um rosé da uva espadeiro cai muito bem. Se for acompanhado de algum molho agridoce, pede-se um vinho rosé com alguma açúcar residual, caso contrário, um rosé seco e vibrante.

Peixes – peixes com maior teor de gordura, assados ao forno, ou pratos à base de peixe, como moquecas, pedem um Verde branco com maior estrutura e boa acidez, um alvarinho barricado seria uma boa pedida. Já peixes delicados pedem um Verde branco sem estágio em madeira, com frescor e austeridade, nesse caso um loureiro seria uma ótima opção.

Bacalhau pelo seu caracteristico salgado e intenso, um branco encorpado com algum tempo de guarda, onde notas mais complexas de tabaco e especiarias harmonizam com a intensidade aromática do prato. Alvarinho ou Avesso são Verdes que se dão muito bem nesse caso.

Massa/Pizza – nesses casos o que importa para determinar o tipo de vinho é o que ornamenta, o que acompanha essas massas. Em geral, o molho de tomate, quando determinante, é de difícil harmonização por conta de sua elevada acidez. Nesse caso, os brancos são descartados para dar lugar aos tintos, no caso dos Verdes, a casta Alveralhão, com fruta e equilíbrio pode ser um ótimo companheiro à mesa.

Churrasco – devido à enorme diversidade de alimentos que aceitam a grelha, como carnes vermelhas gordas, carnes brancas condimentadas, queijos, legumes e pães, deve ser eleito um coringa, um Verde que com tudo combina, um espumante branco seco, nature, é a melhor escolha nesses casos.

Queijos – Contra o senso comum, o vinho mais adequado a queijos em geral, é branco e não tinto. Nesses casos, a untuosidade e a cremosidade de um Verde da casta Avesso, aromático, complexo e profundo é uma escolha certeira.

Fontes:

 

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